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Bombeiros socorrem em média 6,3 atropelados a cada 24 horas em Minas

Na data dedicada em várias partes do mundo às pessoas que circulam a pé pelas ruas das cidades, o desafio ainda é grande para evitar que pedestres sejam vítimas de atropelamentos em Belo Horizonte e em Minas Gerais. Números fornecidos pelo Corpo de Bombeiros mostram que a corporação atende, todos os dias, em média, 6,3 casos de atropelados, seja por carros, caminhonetes, motos, bicicletas, ônibus e caminhões, levando em consideração todo o território do estado. Já no Hospital João XXIII, principal pronto-socorro mineiro, com a maioria dos atendimentos concentrados em Belo Horizonte e na Grande BH, a média diária de pacientes é de 3,6 pessoas pelo mesmo problema. Nesse cenário, a reportagem do Estado de Minas reproduziu uma fotografia clássica tirada em 8 de agosto de 1969 e que inspirou a instituição do Dia do Pedestre, com o objetivo de destacar a necessidade de respeito à faixa dedicada a eles.

Na fotografia de referência, os Beatles foram clicados atravessando a Abbey Road, imagem que virou a capa do disco com o mesmo nome da avenida de Londres. Quarenta e nove anos depois, uma agente da BHTrans, um funcionário do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), um agente da Guarda Municipal e um soldado do Corpo de Bombeiros reproduziram o mesmo movimento, desta vez na Avenida dos Andradas, em frente à Praça da Estação, Hipercentro de BH, para reforçar a necessidade de respeito à faixa de pedestres tanto por parte dos próprios usuários, que muitas vezes se arriscam em qualquer lugar para atravessar ruas e avenidas da cidade, quanto dos motoristas, repetidamente flagrados sem dar a devida preferência.

O soldado Gláuber Fraga, do Corpo de Bombeiros, um dos integrantes da imagem, destacou que a imprudência dos dois lados é a principal causa de acidentes. “Pedestres atravessam muitas vezes correndo, sem olhar para os dois lados nem procurar uma faixa destinada a eles. Por outro lado, quando o sinal de pedestres começa a piscar e ficar vermelho, motoristas já tentam avançar e aí podemos ter acidentes”, diz. O excesso de velocidade eleva o risco de atropelamentos, destaca.

Também participaram da imagem a agente da BHTrans Eunice Tassi Romagnoli, o agente da Guarda Municipal João Marcos Souza e o técnico em enfermagem do Samu Vailton Oliveira Santos. Pela Guarda Municipal, o subinspetor Wellington Quintão acrescentou que a prática da corporação no controle de trânsito da cidade é marcada por muitos conflitos entre veículos e pedestres. “Quando o pedestre iniciar a travessia, o condutor deve aguardar que ele a termine. Ao contrário, muitas vezes ele ameaça o pedestre. Também é observada diariamente a pressa dos pedestres querendo ganhar aquele minuto, o que coloca sua vida em risco”, acrescenta.

Quando o assunto é dar a preferência à pessoa que está atravessando a pé em sua faixa, o número da média diária de infrações aumentou em 2018 em relação ao ano passado, segundo dados do Departamento Estadual de Trânsito de Minas Gerais (Detran/MG). Enquanto em 2017 foram 260 multas para motoristas que não respeitaram o espaço destinado a pedestre ou veículos não motorizados, média de 0,7 por dia, de janeiro a junho deste ano foram 223 casos, média de 1,2 por dia e aumento de 71% (confira quadro). Já os atendimentosestão caindo, tanto nos números do Corpo de Bombeiros em Minas Gerais quanto no João XXIII. Mesmo assim, nas ruas de BH, poucos minutos são necessários para observar o risco. A reportagem encontrou uma infinidade de exemplos do desrespeito dos carros aos pedestres no cruzamento da Rua São Paulo com a Avenida Afonso Pena, Hipercentro de BH. Mesmo com a placa indicando que a preferência é de quem está a pé, os carros só param quando o número de pessoas impõe um bloqueio.

No cruzamento da São Paulo com a Avenida Amazonas, dois quarteirões acima, o desrespeito muda de posto. Pedestres passam a não respeitar o boneco vermelho, que indica o fechamento do sinal, e entram no meio dos carros. Além disso, dispensam a calçada. O metroviário Eli Cortes, de 62, que é carioca, considera que em BH o respeito é muito maior ao pedestre do que no Rio de Janeiro. “Acho que o motorista tem que fazer um esforço, porque o pedestre é prioritário e tem que ter sua vez. As pessoas precisam de um pouco mais de paciência”, diz ele. Por outro lado, o taxista George Pereira da Silva Filho, de 40, destaca que a questão da preferência não é tão simples. “Tem via de trânsito rápido em que não dá para você simplesmente parar o carro de uma vez, porque você pode causar acidente. O melhor é que os dois lados usem o bom senso”, diz.

O médico Romulo de Andrade Souki, que trabalha noss setores de emergência, cirurgia-geral e trauma do Hospital João XXIII, destaca que a gravidade dos ferimentos das vítimas de atropelamento está relacionada à energia passada ao corpo do paciente com a batida. Também varia entre adultos e crianças. “Atropelamentos envolvendo adultos, por exemplo, pegam mais nas pernas e por isso a facilidade de ter traumatismo de membros e crânio quando a vítima bate a cabeça no vidro é maior. Já um carro atropelando uma criança a pega em cheio e por isso o traumatismo é mais grave”, afirma. Ele destaca que o caminho para evitar os casos é investir na prevenção.

Segurança exige consciência

Medidas são tomadas há anos em Belo Horizonte para tentar diminuir os atropelamentos na cidade. Elas são pensadas em conjunto por diferentes órgãos da prefeitura, principalmente a BHTrans. Entre as mudanças implantadas estão a colocação de ilhas de refúgio, de faixas de pedestres, acréscimo de calçadas, revisão do tempo semafórico, além de ações educativas, que visam à orientação dos moradores e motoristas. Mas a principal mudança deve ocorrer na cultura dos pedestres, defende a coordenadora de Projetos Especiais e Segurança no Trânsito da BHTrans, Jussara Belavinha.

“O pedestre, de forma geral, tem um comportamento muito inadequado. Analisando todos os Reds (registros de ocorrência) de acidentes com vítimas e os laudos de casos mais graves ou fatais, o que podemos notar é que o pedestre atravessa em qualquer lugar, sem se preocupar muito”, afirma. Mas tem também o lado dos motoristas, lembra Belavinha, que destaca o papel dos motociclistas nos acidentes. “Motos correspondem a 13% dos veículos em circulação e estão envolvidas em mais de 30% dos atropelamentos e 65% dos acidentes. Um dos principais fatores é a velocidade em um ambiente urbano. Não podemos ter velocidades altas”, afirma.

As ações educativas da BHTrans envolvem diferentes idades, mas uma delas preocupa mais: os idosos, mais vulneráveis aos atropelamentos. “Então, temos um trabalho com a Secretaria de Saúde, que tenta sensibilizá-los dos riscos que é atravessar fora da faixa”, disse a coordenadora.

Estado de Minas

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